Sophia the cloth doll, or the importance of play in one’s creative life

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Passei praticamente todas as minhas horas livres em Maio a fazer esta boneca. Comecei-a em 2012 (ao mesmo tempo do que esta, lembram-se dela?) e, já não sei bem porquê, de repente senti uma vontade enorme de acabá-la. A sua destinatária — que, na altura, tinha apenas 2 anos — já está na escola primária e, entretanto, ganhou duas irmãs. A perspectiva de fazer uma boneca com enxoval completo para três irmãs transformou-se rapidamente numa obsessão. Requisitei livros na biblioteca, peguei finalmente naqueles livros antigos que ando a coleccionar há anos, adormeci a pensar em bonecas, acordei a pensar em bonecas, recordei as bonecas da minha infância, as suas roupas e a maneira como eu brincava com elas. Curiosamente, as bonecas que mais me marcaram foram as de casa da minha avó: lembro-me de uma ruiva sardenta que tinha um impermeável amarelo com um chapéu a condizer e um fato de bailarina, e dos sapatos brancos de outra.

Bem, voltando a esta boneca de pano: é uma Poppy Doll. Quanto ao guarda-roupa, bem, esse foi feito sem moldes (excepto a camisa de noite). Aliás, usei moldes, sim, mas desenhei-os eu. E aqui entra a segunda parte do título deste post: a importância de “brincar” durante o processo criativo (escrevo brincar entre aspas porque não adoro a palavra neste contexto… mas enfim, acho que me conseguem perceber).

Deixem-me começar por dizer que não sou contra moldes. Bem pelo contrário: um molde de qualidade é, normalmente, garantia de sucesso, bem como um excelente ponto de partida para outros voos. Tenho comprado inúmeros moldes de costura ao longo dos anos e gosto de saber que, ao fazê-lo, estou a apoiar o trabalho das suas autoras (que, muitas vezes, são mulheres em situações muito parecidas com a minha). Vou continuar a comprar moldes e a encorajar outras pessoas a fazer o mesmo. Mas, por vezes, sabe bem criar algo sem base de espécie alguma. Fazer desenhos, provas em pano cru, duas, três, quatro tentativas, até conseguir concretizar aquilo que imaginei.

Ao longo deste mês deitei muitos ensaios fora. Senti-me frustrada, cansada, mas nunca desencorajada. Continuei a tentar e lá fui conseguindo fazer aquilo que queria. E já adivinham o que vou escrever agora: aprendi imenso! E também me diverti imenso!

Tive também a oportunidade de praticar a minha actividade preferida: dar novos usos a materiais antigos. Toda a roupa desta boneca foi feita com tecidos em segunda-mão, muitos deles aproveitados de antigas peças de roupa. O vestido e a blusa branca eram camisas de noite que comprei em lojas de caridade. As botas de feltro já foram uma camisola de lã (podem ler mais sobre feltro feito em casa aqui). A capa de fazenda já foi uma saia. O saco-cama foi feito com um pano de tabuleiro bordado, um cobertor antigo, um bocado de chita a fazer de colchão e um resto de bordado inglês que me sobrou das minhas capas de édredon (a inspiração para o saco-cama veio desta ideia da Florence).

Muitas vezes caio na armadilha de pensar que, pelo facto de o meu tempo livre ser limitado, tenho sempre de ser produtiva, eficiente, prática. Mas estou tão contente por ter dedicado um mês inteiro a este projecto. Sinto que expandi os meus conhecimentos de costura e que valeu a pena todo o investimento de tempo, esforço e dedicação. Esta boneca trouxe-me luz em dias escuros e entusiasmo em momentos monótonos. Agora espero que faça as delícias de três pequenitas em Lisboa.

 

I spent all of my free time in May making this doll. I had started it back in 2012 (at the time, I cut two dolls and only finished one — remember her?) and last month I felt the sudden urge to finish it. She’s meant for a girl who was 2 years old then and is now in primary school, having gained two sisters along the way. The idea of making a doll and her wardrobe for three sisters quickly developed into an obsession for me. I borrowed books from the library, I finally read all those old books I’ve been buying over the years, I went to sleep and woke up thinking about dolls, I reminisced about own childhood dolls, their clothes and the way I used to play with them. Funnily enough, I thought mostly about the dolls that I used to play with at my grandmother’s: I remember a freckled, red-haired one that had a yellow raincoat and a matching hat, as well as a ballerina outfit, and a particular pair of white doll shoes also came to mind.

Anyway, back to this cloth doll I made: it’s a Poppy Doll. As for her clothes, with the exception of the nightie, they were made without patterns. I mean, I used patterns but I drew them myself. And now comes the second part of the title of this blog post: the importance of play in one’s creative process.

Let me start by saying that I’m not against sewing patterns. On the contrary: a good quality pattern is usually a recipe for success, as well as a wonderful starting point for other creations. I’ve bought numerous patterns over the years and I like knowing that, by doing so, I’m supporting the work of their authors (who are usually women in similar situations to my own). I’m going to keep buying them and encouraging others to do the same. But sometimes it feels good to create something without a base whatsoever. I sketched on paper, I sewed two, three, four toiles, until I managed to achieve what I had in mind.

Throughout this past month I often felt frustrated and tired, but never discouraged. I kept trying and I somehow got to where I wanted to be. And I’m sure you’re guessing what I’m about to write: I learned so much! And I had so much fun!

I also had the change to practise my favourite activity: giving new uses to old materials. This doll’s wardrobe was entirely made with second hand fabrics, most of them repurposed from old clothes. The dress and the white blouse were originally nightgowns I bought in charity shops. The felt boots used to be a wool jumper (more on homemade felt here). The cape was salvaged from a skirt. Her sleeping bag was made with a mid-century embroidered tray cloth, an old wool blanket, a piece of Portuguese chita that makes me think of ticking mattresses and a piece of border anglaise left over from my duvet covers (the inspiration for the sleeping bag came from Florence’s adorable bear sleeping bags).

I often fall in the trap of thinking that because I’m time poor, I must always be productive, efficient, practical. But let me tell you how happy I am to have dedicated a whole month to this project. I feel that I’ve expanded my sewing knowledge and that all the time, effort and dedication have been well worth it. This doll brought me light in dark days and excitement in dull moments. Now I hope it will delight three little girls in Lisbon.

 

6 thoughts on “Sophia the cloth doll, or the importance of play in one’s creative life

  1. Raquel says:

    Constança, compreendo perfeitamente o que sente, porque o tenho sentido nos 2 últimos meses. Deixei o meu emprego de gestora para me dedicar inteiramente à minha loja de Artesanato para turistas na cidade do Porto.
    Agora que estou na loja a fazer as peças com calma e não aos fds entre dar atenção aos miúdos, à casa e afins, já aprendi tanto sobre as minhas 2 máquinas de costura (1 Pfaff com mais de 40 anos e uma mais moderna mas modesta), aprendi sobre que se fizer o corte do tecido já com as medidas corretas poupo trabalho, entre outros… e já sem o stress de ter de em poucas horas fazer muito para a loja vender, com sentimentos de deixar a família ou a casa sem apoio….. costurar com calma e amor reflete-se no trabalho final e por incrível que pareça, faço mais devagar, mas até demora menos tempo a elaborar cada peça, porque já não acontecem os erros e falhas tão típicos da correria.

    ainda bem que voltou a partilhar as suas dicas e histórias, quando me sentir duvidosa de ter tomado a minha decisão, os seus textos serão um incentivo positivo!

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  2. Sara Grilo says:

    Tenho a certeza de que fará, está tão gira e cheia de pormenores lindos! Bom trabalho!
    Também passei os dois últimos dias a fazer um anjinho tipo “Tilda” para a minha filha de 6 anos, para oferecer hoje, dia da criança. Foi tão bom ver o seu contentamento que valeu todo o esforço e cose/descose, para ela não é anjo é uma fada dos dentes!
    É claro que o entusiasmo passa depois de alguns dias, mas depois volta e nunca se esquecem que fomos nós que fizemos e não foi comprado, e dão muito valor a isso.
    Boa semana!
    Sara Grilo

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  3. Silvia Orchidea says:

    C.
    Apreciei imenso os bordados primorosos do pequeno saco de dormir e o capricho das costuras inglesas!

    Com certeza as bonequinhas serão motivo de muita alegria das meninas! Parabéns!
    Que a tradição de brinquedos caseiros se perpetue por muitos e muitos anos!!
    Uma semana muito produtiva e alegre, abraços
    S.O.
    Rio

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  4. Rita João Correia Martinho Lopes says:

    Querida Constança!!!
    Valha-nos hoje em dia a tecnologia para ne alertar que a Constança estava de volta!
    Sim, foi o meu telemóvel que me avisou: “Olha que este blog que costumavas tanto ver está de novo activo!…”
    IIIUuuupiii! Estou tão contente de poder voltar a mergulhar numa pequenina parte do seu mundo!!!
    Muito obrigada!!!!
    A boneca está liindaa!

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